sexta-feira, 21 de setembro de 2007

incidente no parque.



se levantava enfim, numa manhã fria e pálida, com um tímido sorriso e um lento caminhar, seus lábios macios e rosados, seu adorável e jovem corpo enfim vestia o vestido azul, encomendado a tanto tempo para tão sonhado encontro...
do lado de lá ele ainda dormia. estava atrasado, mas logo lembrara e como sonhava com sua amada levantara em um soluço falando seu nome: Etiene! E vendo seu rosto ainda em sonho, disse mais uma vez que a amava...
com passos lentos e levemente embalados ela caminhava, atravessou a rua com convicção de que seria perfeito, Fábio estaria lá, e seus olhos verdes brilhariam com intensidade... Estavam apaixonados.
ela chega no parque, ansiosa tropeça nas próprias pernas, logo se acalma e senta, brincado com uma boca-de-leão, roubada de um jardim a caminho do tão esperado encontro.
Fábio se arruma rápido, levará a jóia mais linda, nessa manhã de outono, o dia esperado para demonstrar tudo o que sente, seu coração bate com ardor, pensa nela a cada segundo, como será sua reação ao ver o lindo colar de rubis e brilhantes que herdara da sua avó, especialmente para ela... e mulher de seus sonhos.
ele sai, finalmente do apartamento. volta correndo! esqueceu o perfume... não poderia esquecer de um único detalhe.
ela com seu perfume floral penteava com os dedos seus longos cabelos negros, tinha chegado cedo demais, mas a ansiedade era grade para esperar. a cada minuto olhava o relógio!
finalmente o avista, pontualmente às 8 da manhã, vindo em passos apressados ela se levanta do banco da praça, não se controla e solta alto uma risada boba e apaixonada! tenta disfarçar e ele grita seu nome, ela cai sentada novamente, ele nas mãos leva o bendito colar de rubis... grita:
- Etiene!
- Ah! meu querido!- grita ela.
e se abraçam intensamente.
Ricardo acorda cedo, 6 e meia. aquela manhã de outono já não era tão feliz pra ele dessa vez... sua dor terrível e incessante, lembrava daquele doce sorriso, daquele caminhar delicado, sua amado, que para sempre o abandonara, descobriu que sua honestidade não o orgulhava, pelo contrário, apropriava-se de casas burguesas, dizia que não iria se deixar ser roubado... e roubava. quando ela descobriu era tarde pra parar, mas parou. virou um operário, com as mãos judiadas acariciava sua pele macia, mas que se esquivava de sua atenção. se decepcionara demais para manter um sentimento. resolveu se afastar. a um ano estava só, lembrando dela a cada instante. tentou um emprego melhor, estava estudando direito, fazia tudo, tudo para que ela o olhasse. todos os dias ia ao parque onde se encontravam nas manhãs de domingo... mas ela nunca mais apareceu. todas as manhãs que Deus dava, ele acordava falando seu nome, mas ela nunca mais aparecera no seu ponto de encontro.
naquela manhã, como de costume, Ricardo estava lá, e qual foi sua surpresa: ela apareceu, mais linda que nunca em um vestido azul, com seus longos cabelos negros esvoaçantes e um sorriso leve nos seus doces lábios, lá estava Etiene, finalmente comparecera.
ele esperou pacientemente escondido, para ser pontual, observava ao longe a ansiedade da menina, e 8 horas em pondo foi ao seu encontro, mas divina infelicidade, tinha visto ela com outro...
Fábio a abraçava forte, a saudade era grande, o amor maior ainda, Etiene lacrimejava de alegria quando parou, olhou com seus verdes olhos brilhantes pela última vez o rosto do seu príncipe encantado... desmanchou o sorriso, ele sem entender sentiu seu corpo pesar, atrás dela, em lágrimas um homem jovem, arrumado, com uma rosa vermelha em uma mão, uma arma na outra. Era Ricardo. nunca imaginou que ela apareceria lá para ser de outro que não dele. Fábio gritou seu nome, e Etiene, pela última vez, o ouviu dizer que a amava.
Ricardo se arrependeu, nunca viveria sem ela. apontou a arma para as têmporas. atirou.
o colar não foi entregue, e nunca usado por Etiene. naquele parque todas as manhãs continuaram iguais, exceto as manhãs de domingo, quando Fábio ainda está, às 8 da manhã, esperando Etiente.

o banheiro do 14

bom, estou eu aqui pessoalmente mais uma vez, com prazer para falar do famoso banheiro do bloco 14, casa co estudante da UFSM.

por quê justamente do 14?
a resposta é clara e responde outra pergunta:
"onde tem um banheiro na casa do estudante?"
- no 14!
lá tá sempre aberto! sujo, tão sujo que mal dá pra pizar, tem lastros de cama para se pisar em frente as privadas, para que o campanheiro usuario não pise no molhado, já que os sanitários vasam, tais como os chuveiros que, milagrosamente não estragam nem são roubados, o único banheiro do térreo que é oficialmente aberto, sendo que se trancam até os do 3º andar para que não roubem os chuveiros, no 14 não há problema!
outra coisa: nunca vi ninguém tomando banho lá, eu morei no térreo do 14, e nunca vi ninguém tomando bamho lá. vivi no 1408, no 1411, mas o banheiro estava sempre vazio. apesar de grande parte dos moradores da união usarem aquele banheiro, todos os gaudérios que fazem churrasco em frente aos blocos, ouqualquer pessoa que passe, todos usam, mas está sempre vazio...
coisas inesplicáveis, que só acontecem no banheiro do 14...

Eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume....

uma das melhores do Falcão do brega!


Você não faria a menor falta
Num dia de domingo no Beach Park
Eu não te levaria nem morta
A passear comigo no Iguatemi
Eu não me atreveria a passar vexame
Perante os meus amigos lá da Aldeota
Pois agora eu tenho o maior respaldo
Nas altas paneladas da alta sociedade

Eu sei que a burguesia fede
Mas tem dinheiro pra comprar perfume
E além do mais o high society
Leva chifre e não tem ciúme
Eu sou "in", não sou "out" - eu sou VIP

Agora com você eu não quero nem ovo
Eu sei que o meu passado agora me condena
A sua presença só me prejudica
Suja a minha glória, borra a minha fama
Pois hoje eu sou pessoa muito benquista
Com muita influência no meio das rodas
Até já fui chamado pra dar palpite

terça-feira, 18 de setembro de 2007

ZIGGY STARDUST


AH HOMEM LINDO... HOMEM?!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

tristeza

coisas que acontecem entre amigos....
são todos os melhores amigos que se tornam importantes, principalmente na hora dos risos,
das festas e parcerias.
as procurava sempre. algumas as vezes pra chorar minhas dores, aquilo que meus namorados provocavam.
foram elas que comemoraram quando arrumei emprego, foram elas que falaram" o Fábio é massa, não larga dele" ou "o teu namorado bonito tava lá".
foram elas me me ajudaram, me sorriram quando precisava, foi pra quem eu contei todos os meus segredos, até os que não contei pra mais ninguém.
foi com elas que coloquei uma cama como portal no meu cafofo, e as mesmas foram parceiras para pegar carola, tomar alucinógenos e viajar no bosque!
as meninas perfeitas, que se vestiam estranho e ouviam tuiuius,
aquelas meninas não confiavam em mim.
aquelas meninas não acreditaram em mim...
quando ninguém acreditou, elas ao menos deveriam, mas não foram elas, pelo contrario, me incriminaram, me julgaram...
não me querem mais.
assim que se aprende a confiar nas pessoas, não deveria. se errei, errei a confiar também. é pena que tenha sido assim. que triste fim teve essa amizade.
NADA, APENAS QUE NÃO POSSO.

construção


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e
cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Cordel Do Fogo Encantado - Os Anjos Caídos (ou A Construção Do Caos)
Lirinha
Os homens são anjos caídos que Deus mandou para Terra
porque
botaram defeito na criação do mundo. Aqui, começaram a

inventar coisas, a imitar Deus. E Deus ficou zangado,
mandou muita chuva e muito
fogo, eu vi de perto a sua raiva sacra, pois foram
sete dias de trabalho intenso,
eu vi de perto, quando chegava uma noite escura
Só meu candeeiro é quem velava o Seu sono santo
Santo que é Seu nome e Seu sorriso raro
Eu voava alto porque tinha um grande par de asas
Até que um dia caí
E aqui estou nesse terreiro de samba
Ouvindo o trabalho do Céu
E aqui estou nesse terreiro de guerra
Ouvindo o batalha do Céu
Nesse terreiro de anjos caídos
Cá na Terra trabalho é todo dia
Levantar quebrar parede
Matar fome matar a sede
Carregar na cabeça uma bacia
E esse fogo que a Sua boca envia
Pra nossa criação
Deus
Esse terreiro de anjos
Esse errar que é sem fim
Essa paixão tão gigante
Esse amor que é só Seu
Esperando Você chegar
Os Homens aprenderam com Deus a criar e foi com os
Homens que Deus aprendeu
a amar

Venha Ver o Pôr- do- Sol
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde. Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante. - Minha querida Raquel. Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos. - Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima. Ele sorriu entre malicioso e ingênuo. - Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra? - Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui?- perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro.- Hem?! - Ah, Raquel...- e ele tomou-a pelo braço rindo. - Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal? - Podia ter escolhido um outro lugar, não? - Abrandara a voz - E que é isso aí? Um cemitério? Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem. - Cemitério abandonado, meu anjo. Vivo e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo - acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa? Brandamente ele a tomou pela cintura. - Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo. Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada. - Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério... Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta. - Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura... - E você acha que eu iria? - Não se zangue, sei que eu iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento -Você fez bem em vir. - Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar? - Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende. - Mas eu pago. - Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico. Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava. - Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida. - Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado - prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. - Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui. - É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros. - Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo... O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados. - É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente - exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega. - Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa. - Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre. Delicadamente ele beijou-lhe a mão. - Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo. - É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais. - Ele é tão rico assim? - Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro... Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorrisso reapareceu e as rugazinhas sumiram. - Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra? Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo. - Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano... - É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem? - Nenhum- respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - À minha querida esposa, eternas saudades- leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade. Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido. Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso. Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou. - Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim - Deu-lhe um rápido beijo na face.- Chega Ricardo, quero ir embora. - Mais alguns passos... - Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! - Olhou para atrás. - Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta. - A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio - lamentou ele, impelindo-a para frente. - Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. - E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas. - Sua prima também? - Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus. - Vocês se amaram? - Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. - Enfim não tem importância. Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o - Eu gostei de você, Ricardo. - E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença? Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu. - Esfriou, não? Vamos embora. - Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos. Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha teceradois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba. Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha. - Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui? Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico. - Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento. - E lá embaixo? Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor. - Todas estas gavetas estão cheias? - Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz. - Vamos, Ricardo, vamos. - Você está com medo? - Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio! Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado: - A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus. Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada. - Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando... Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira. - Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos. Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. - Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida! Ela sacudia a portinhola. - Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso.- Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra... - Boa noite, Raquel. - Chega, Ricardo! Você vai me pagar!...- gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. - Não, não... Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas. - Boa noite, meu anjo. Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida. Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano: -Não! Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda. lygia fagundes telles